Construo sistema para o setor e integro o SISBOV em todo o escopo da certificadora credenciada. Hoje estou migrando um sistema legado de certificadora para uma plataforma nova, com a operação no ar o tempo todo. É o cruzamento em que fornecedor de produto fechado não entra: migração de legado somada a integração oficial.
Comece pelos papéis, porque software que confunde papel erra o fluxo inteiro. O SISBOV é regido pela IN MAPA nº 51/2018, vale para bovinos e bubalinos, e a adesão é voluntária, salvo exigência de programa sanitário oficial ou do mercado importador. Quem certifica é a certificadora credenciada pela SDA/MAPA, e o que ela certifica é a propriedade — o ERAS —, nunca o animal; a aprovação vem da auditoria oficial. Vistoria é a visita do supervisor da certificadora; auditoria é do fiscal federal. E a GTA, Guia de Trânsito Animal, quem emite é o órgão estadual: em Goiás, a Agrodefesa, pelo SIDAGO. São donos diferentes, bases diferentes e prazos diferentes para o mesmo animal.
O ambiente da integração oficial é restrito: não é aberto e o acesso depende de liberação do Ministério da Agricultura e Pecuária. Trabalho dentro dele, com essa liberação, do lado da certificadora credenciada.
A ponta que fala com a BND, a Base Nacional de Dados do SISBOV, é a de quem tem credenciamento: a certificadora. Não existe plugar uma empresa qualquer no SISBOV. Para produtor, frigorífico e software de gestão o trabalho é outro — o sistema que conversa com quem tem o credenciamento, o modelo de dados que aguenta a regra, e a conciliação que hoje mora numa planilha ao lado do sistema oficial.
Animal não é brinco. O elemento de identificação oficial é um par — brinco e botton com a mesma numeração — e a perda em pasto é rotina, não exceção: a norma manda reidentificar com outro número, sem reuso. Isso exige a identidade do animal separada da identidade do identificador, com histórico N para 1, e quem guardou o animal num campo “numero_brinco” vai reescrever o sistema. O número SISBOV é string, sempre: 15 dígitos, 076 mais 12, com os dígitos 10 a 15 formando o número de manejo impresso no brinco — zero à esquerda some no primeiro INT. E validar “começa com 076” rejeita leitura RFID legítima, porque o campo de 10 bits do ISO 11784 também carrega código de fabricante alocado pela ICAR. A parte que custa caro não está na integração; está aqui.
O resto é máquina de estados com prazo legal em cada transição: comunicação de identificação e de movimentação em 30 dias, baixa de abate em 3 dias, e a validade do certificado do ERAS, que encurta quando a propriedade entra em confinamento e transforma a agenda do supervisor em problema de roteirização. Alerta, fila e trilha de auditoria são conformidade, e é isso que o fiscal confere. O trabalho silencioso é a reconciliação de três bases: o inventário contado no curral, o saldo no sistema estadual e o registro na BND. A divergência entre elas é a não conformidade estrutural do setor, e é onde a planilha paralela nasce ao lado do sistema oficial. Sobre o PNIB, sem manchete: hoje ele coexiste com o SISBOV, rastreabilidade por lote o Brasil já tem desde a Lei nº 12.097/2009, o que ele exige dos estados é interoperabilidade entre os sistemas estaduais e a base federal, e cronograma e etapa eu discuto com a portaria aberta na frente.
O que eu não faço aqui é vender plataforma de gestão de rebanho: esse mercado tem dono e prova com escala. Faço o que produto fechado não faz — tirar o sistema antigo do lugar sem parar a operação, ligar o que já existe na integração oficial e devolver o cliente dono do código e do próprio dado.